Vinte anos depois da Eco-92, a maior conferência da história da ONU, a
Rio mais 20 reinjeta ânimo na agenda da sustentabilidade e tenta frear a
degradação do planeta.
Abril e junho
de 2012 serão meses de forte simbolismo para quem se preocupa com a crise
contemporânea. Em abril de 1987, há 25 anos, a ex-primeira-ministra da Noruega,
Gro Harlem Brundtland, apresentava à Assembleia Geral das Nações Unidas, em
Nova York, o relatório Nosso Futuro Comum, que trouxe o tema do
desenvolvimento sustentável para a discussão global. E, há 20 anos,
realizava-se, no Rio de Janeiro, a Cúpula da Terra, a Eco-92, a maior
conferência já promovida pela ONU.
De 20 a 22 de
junho, o Rio será palco de mais um grande evento sobre sustentabilidade, a Rio
mais 20. Espera-se a presença de 100 chefes de Estado e de milhares de
representantes de empresas, agências multilaterais e entidades civis. Há dois
grandes temas na pauta: a transição para uma economia verde socialmente
inclusiva e uma reforma da ONU para a criação de um novo órgão, a Organização
Mundial do Meio Ambiente (Omma).
Na Eco-92 foram adotadas importantes convenções internacionais - como a
Convenção do Clima e a Convenção sobre Diversidade Biológica -, além da Agenda
21, com um programa de ações pelo desenvolvimento sustentável. A Rio+20 não
aprovará nenhum documento desse porte, mas mapeará as (muitas) lacunas no
cumprimento dos acordos firmados desde 1992, definindo medidas para preenchê-
las. Será, também, a primeira conferência ambiental da ONU a discutir
modificações na economia e processos de produção e consumo mais limpos, que
respeitem os direitos humanos. Em paralelo à reunião no Rio Centro, na Barra da
Tijuca, no centro da cidade, entre 16 e 19 de junho, no Aterro do Flamengo e na
Praça Mauá, será realizada a Cúpula dos Povos por Justiça Social e Ambiental,
promovida por milhares de ONGs para fazer avançar o multilateralismo ambiental
no planeta.
Apesar de os críticos proclamarem que pouco se fez na prática, desde a Eco-92,
é inegável que o ativismo pela sustentabilidade alargou sua atuação. Temas
relacionados ao meio ambiente e à sustentabilidade tornaram-se itens
obrigatórios de escolas, governos, institutos de pesquisa e empresas.
"Há
20 anos seria inimaginável uma empresa preocupar-se com o estabelecimento de
metas de redução de gases de efeito estufa, ou reutilizar água, aproveitar
resíduos ou direcionar negócios para a base da pirâmide social", nota
Marina Grossi, presidente-executiva do Conselho Empresarial Brasileiro para o
Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que congrega 72 grandes companhias
brasileiras.
Em novembro, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma)
lançou o relatório De olho no meio ambiente em mutação: do Rio à Rio+20,
uma coleção de dados sobre a evolução dos indicadores ambientais e econômicos
nas duas últimas décadas. O relatório mostra, por exemplo, que entre 1992 e
2009 as empresas eliminaram a geração de 93% dos gases poluidores responsáveis
pelo buraco na camada de ozônio, cumprindo com as obrigações do Protocolo de
Montreal. Hoje, o problema do buraco de ozônio está praticamente resolvido.
Também houve progresso na disseminação das energias renováveis, embora elas
representem apenas 16% da matriz energética mundial. O consumo de energia
eólica saltou 6.000%, a fonte solar cresceu 30.000%, o uso de biocombustíveis
aumentou 3.500% e o de biodiesel, 300.000%. Outros avanços destacados pelo estudo:
a área da agricultura orgânica cresce 13% ao ano e o público do ecoturismo
aumenta a uma taxa três vezes superior à do turismo de massa.
"Não estamos
na velocidade necessária, mas houve, sim, um grande avanço na governança
ambiental global. Hoje, o Brasil tem políticas para reduzir emissões de carbono
e já aceita metas compulsórias para 2020", diz Suzana Khan, subsecretária
de Economia Verde do Rio de Janeiro.
Ao longo de 20 anos, a agenda do desenvolvimento sustentável acumula um
calhamaço de tratados, declarações, estudos e algumas leis para a adoção de
tecnologias limpas e o engajamento de empresas, governos e entidades sociais. É
preocupante para o futuro, contudo, que os principais líderes do movimento pela
sustentabilidade acenem com uma avaliação pessimista dos seus efeitos práticos.
Mesmo Achim Steiner, economista russo nascido no Brasil e diretor-executivo do
Pnuma, não parece entusiasmado com os resultados. "Embora tenha havido
muitos avanços, a escala e a velocidade da degradação ambiental superam as
respostas dadas desde 1992", disse à PLANETA. Ele ilustra sua preocupação
com dados do relatório que o Pnuma publicou em novembro. Desde o início da
década de 1990, as emissões de carcarbono aumentaram 36%, o número de espécies
declinou 30% nos trópicos, as florestas nativas perderam cerca de 300 milhões
de hectares, o número de megacidades (aglomerações urbanas com mais de 10
milhões de habitantes) subiu 110% e o uso de fertilizantes na agricultura
cresceu 35%, entre outros tantos indicadores desanimadores. "Seria falso
dizer que o mundo fracassou nestes últimos 20 anos. Mas seria fantasia afirmar
que estamos implementando o desenvolvimento sustentável nos países e na
economia", admite o diretor do Pnuma.
Na Convenção do Clima, só os países da União Europeia chegaram próximos de cumprir as metas do Protocolo de Kyoto." Feldmann vê o aumento das emissões de gases-estufa, em quase todos os países, como um sinal de fracasso dos acordos da Eco-92. "Mesmo a meta fixada pela Conferência do Clima de Copenhague, em 2009, de estabilizar o acréscimo na temperatura do planeta em 2º Celsius, está se tornando inviável.
Na Convenção do Clima, só os países da União Europeia chegaram próximos de cumprir as metas do Protocolo de Kyoto." Feldmann vê o aumento das emissões de gases-estufa, em quase todos os países, como um sinal de fracasso dos acordos da Eco-92. "Mesmo a meta fixada pela Conferência do Clima de Copenhague, em 2009, de estabilizar o acréscimo na temperatura do planeta em 2º Celsius, está se tornando inviável.
A primeira versão da declaração, divulgada em janeiro, toca em tópicos
importantes, mas peca por ser excessivamente genérica e ignorar a necessidade
de mecanismos financeiros de longo prazo, que ajudem os países emergentes a
combater a pobreza e a adotar tecnologias de baixo carbono e mais eficientes no
uso de recursos naturais. "Minha expectativa é de que a conferência saia
da retórica, estabelecendo compromissos mensuráveis e mecanismos de
monitoração. Aquilo que não se mede, não tem como ser gerido", afirma Suzana
Khan.
Trabalha-se para que a agenda mínima contenha quatro itens: Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável (ODS), Produto Interno Bruto verde, uma fonte de
apoio financeiro global e a criação da Organização Mundial do Meio Ambiente. Os
ODS seriam estabelecidos em complemento ao antigo programa dos Objetivos de
Desenvolvimento do Milênio, valendo a partir de 2015, com metas específicas
para serem alcançadas até 2030 e indicadores para medir o cumprimento.
Contemplariam temas como padrões de produção e consumo, proteção de oceanos,
segurança alimentar, agricultura sustentável, energia sustentável, acesso e
eficiência no uso da água, cidades sustentáveis, emprego verde, trabalho
decente e inclusão social e redução de desastres ambientais.
No caso do PIB verde, a ideia é solicitar ao secretário-geral da ONU que promova consultas para definir o novo indicador. Nele seria descontada do cálculo a riqueza gerada à custa da poluição dos rios ou da emissão de carbono além de um certo limite. Produtos fabricados com o uso de energia eólica passariam a ter maior peso na conta do que os derivados de indústrias cuja energia fosse gerada em termelétricas a carvão.
Quanto ao financiamento, a primeira versão da declaração da Rio+20
limita-se a reafirmar a necessidade de os países desenvolvidos cumprirem a
destinação de 0,7% de seu Produto Nacional Bruto à Assistência Oficial ao
Desenvolvimento (ODA, em inglês). A promessa foi assumida na ONU em 1970 e
reafirmada na cúpula mundial de 2000 que estabeleceu os Objetivos do Milênio.
Mas só cinco países a cumpriram - Dinamarca, Holanda, Luxemburgo, Noruega e
Suécia. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico,
apenas 0,32% da renda nacional acumulada dos países ricos foi remetida às nações
em desenvolvimento em 2010, na forma de ODA.
De 1992 a 2012 a coisa piorou... ...mas também houve avanços!
"Precisamos de um mecanismo financeiro adicional para transitar para
a economia verde. Uma fonte poderia ser uma taxação sobre as transações
financeiras globais", defende Aron Belinky, coordenador de processos
internacionais do Instituto Vitae Civilis. O tributo será uma das principais
bandeiras da Cúpula dos Povos por Justiça Social e Ambiental, que reunirá
milhares de ativistas no centro do Rio. Além do imposto sobre operações
financeiras, o evento no Aterro do Flamengo, inspirado no Fórum Global de 1992,
insistirá na necessidade de a conferência oficial tocar o dedo na ferida da
desigualdade.
"Não adianta só esverdear a economia com tecnologia e
energias renováveis. O sucesso da Rio+20 estará em obter um compromisso contra
a desigualdade que se reflita até no próprio funcionamento dos mercados",
adverte Ricardo Abramovay, professor da Faculdade de Economia e Administração
da USP. O combate à desigualdade extrapola a luta contra a pobreza, questionando
os padrões de consumo dos países ricos e das classes privilegiadas. "É
fundamental cortar significativamente o consumo do topo da pirâmide para que os
mais pobres possam melhorar suas condições de vida, mesmo que isso implique
algum aumento nas emissões de carbono", diz Abramovay. A ex-senadora Marina
Silva concorda: "É um desafio muito grande para ambos, tanto para os
países que precisam reduzir seu padrão de consumo e de concentração de riqueza
como para os países pobres, que precisam combater a exclusão social e elevar
seus padrões de desenvolvimento."



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